Mulheres demonstram maior resistência ao "muro" da maratona, aponta estudo com mais de 873 mil corredores

Com participação de pesquisadora da Unifesp, estudo mostra que homens são duas vezes mais propensos a sofrer queda brusca de desempenho na segunda metade da prova

Por AIS. COMUNICAçãO E ESTRATéGIA
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Mulheres demonstram maior resistência ao "muro" da maratona, aponta estudo com mais de 873 mil corredores
Divulgação UNIFESP
Todo maratonista conhece, ou teme conhecer, o momento em que o corpo parece não responder mais. As pernas pesam, o ritmo cai e cada quilômetro até a linha de chegada passa a exigir muito mais do que preparo físico. No universo da corrida, esse fenômeno é conhecido como “quebrar” ou “bater no muro”.

Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, analisou 873.334 participações na Maratona de Berlim entre 1999 e 2025 e mostrou que esse “muro” atinge homens e mulheres de formas diferentes. Embora os homens tenham registrado tempos médios mais rápidos, as mulheres apresentaram maior regularidade no ritmo e menor risco de queda brusca de desempenho na segunda metade da prova. A pesquisa tem participação de Marília Santos Andrade, pesquisadora do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 


No estudo, os pesquisadores consideraram como “quebra” uma desaceleração de 20% ou mais na segunda metade da maratona em relação à primeira. Entre os homens, 17,63% atingiram esse nível de perda de ritmo. Entre as mulheres, o índice foi de 9,66%. Na comparação geral, isso significa que os homens foram duas vezes mais propensos a sofrer uma queda acentuada de desempenho durante a prova. 

Para Marília Santos Andrade, os dados reforçam que completar bem uma maratona não depende apenas da capacidade de correr rápido, mas também da forma como o atleta administra energia, ritmo e esforço ao longo dos 42,195 km.

“A maratona é uma prova de resistência, mas também de gestão. O corredor precisa tomar decisões o tempo todo: como largar, quando acelerar, quando poupar energia. O que observamos é que, em média, as mulheres tendem a sustentar uma estratégia mais estável, o que pode ajudar a explicar a menor queda de desempenho na segunda metade da prova”, afirma a pesquisadora.

A diferença apareceu em todos os níveis de desempenho, inclusive entre os corredores mais rápidos. No grupo que completou a maratona em menos de três horas, os homens foram cerca de seis vezes mais propensos a “bater no muro” do que as mulheres da mesma faixa de performance. Para os autores, esse resultado chama a atenção porque mostra que a quebra não está ligada apenas à falta de experiência ou condicionamento. Mesmo entre atletas bem preparados, a estratégia de prova continua sendo decisiva. 

A maior resistência feminina observada na pesquisa pode estar relacionada a uma combinação de fatores fisiológicos e comportamentais. Do ponto de vista metabólico, os autores apontam que mulheres tendem a utilizar proporcionalmente mais gordura como fonte de energia em exercícios prolongados, preservando por mais tempo as reservas de glicogênio, que são fundamentais para sustentar o esforço em provas longas. Esse perfil pode contribuir para retardar a fadiga intensa associada ao “muro” da maratona. 

“Isso não significa que as mulheres não sintam fadiga ou que a prova seja menos exigente para elas. O ponto central é que há sinais de uma maior eficiência na regulação do esforço. Em uma maratona, pequenas escolhas de ritmo no início podem ter grande impacto nos quilômetros finais”, explica a pesquisadora.

Além das possíveis diferenças fisiológicas, o estudo também levanta uma hipótese comportamental: homens podem ser mais propensos a iniciar a prova em ritmo agressivo, mais próximo do limite, aumentando o risco de desaceleração nos quilômetros finais. Já as mulheres, em média, apresentaram uma distribuição de esforço mais constante, com menor oscilação de ritmo.

Essa diferença ficou evidente também na análise dos trechos finais da prova. Nos últimos quilômetros, os homens apresentaram uma desaceleração média maior. Entre o trecho de 35 km a 40 km, eles ficaram 17,8% mais lentos em comparação ao segmento entre 5 km e 10 km. Entre as mulheres, essa queda foi de 12,6%. A análise dos parciais de 5 km também mostrou que os homens tiveram maior irregularidade no ritmo ao longo da maratona. 

“Os dados trazem uma mensagem prática para corredores e treinadores: controlar o início da prova pode ser tão importante quanto treinar velocidade. Muitas vezes, a melhor estratégia não é correr mais forte no começo, mas chegar aos quilômetros finais ainda com capacidade de sustentar o ritmo”, destaca Marília.

Apesar dos resultados expressivos, os autores ressaltam que a pesquisa não mediu diretamente variáveis como frequência cardíaca, lactato, níveis de glicogênio ou aspectos psicológicos individuais. Por isso, as explicações sobre metabolismo, tomada de decisão e comportamento de prova devem ser entendidas como hipóteses consistentes com os dados, e não como causas comprovadas de forma isolada. Ainda assim, a dimensão da amostra e o período analisado fazem do trabalho uma das maiores evidências já reunidas sobre diferenças entre homens e mulheres na administração de ritmo em maratonas. 
 

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LIGIA CARLA GABRIELLI BERTO
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