O drama da Copa do Mundo impõe uma questão: qual o papel da psicologia no esporte?

​Tratar a psicologia com a expectativa messiânica de que ela vá solucionar, sozinha, as mazelas do nosso futebol é jogar contra a própria categoria

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Assisto à transmissão da final de Wimbledon na TV, onde o comentarista assinala enfaticamente que, entre Sinner e Zverev, “a diferença não é psicológica, é tenística”. Pensei comigo: se Zverev fosse o brasileiro João Fonseca, nossos analistas já diriam que o problema é “mental”. Afinal, quase todos os fracassos brasileiros em competições esportivas de alto nível costumam ser explicados pelo aspecto emocional. Reduzir as qualidades necessárias aos grandes campeões a uma única variável é um recurso simplista e, ao mesmo tempo, oportunista. Simplista porque reduz o complexo; oportunista porque ninguém consegue estabelecer objetivamente o que é o “mental”, o “psicológico” ou o “emocional”. É natural que seja assim, já que estamos falando de pura subjetividade. ​Durante a Copa do Mundo, acompanhei o entusiasmo de alguns ao saberem que a comissão técnica contaria com o apoio de uma psicóloga esportiva desde o início da competição. Não fazem mais do que a obrigação, pensei. Mas não demorou para que uma conhecida psicóloga já apontasse mudanças nos jogadores, julgando-os mais focados. Bastou um tropeço em campo para que o trabalho da profissional corresse o risco de ser considerado pífio. Mas será que é esse o papel desse tipo de profissional? Manter os atletas puramente atentos, motivados e blindados contra a pressão? Na Copa de 2014, outra experiente psicóloga do esporte foi chamada às vésperas do jogo contra a Alemanha. Como julgar, então, a qualidade do seu trabalho depois do fatídico 7 a 1? ​A verdade não está nos extremos. O trabalho dessas profissionais não foi ruim, tampouco eles são desnecessários. O papel do psicólogo do esporte vai muito além do cuidado com a competição e a motivação imediata — ou seja, vai além dos resultados de curto prazo. Parte fundamental desse suporte se dá justamente na derrota, na reconstrução do sentido do esporte em meio às perdas, frustrações e limitações que a alta performance impõe. ​Assim como um fisioterapeuta, massagista ou preparador físico são presenças inquestionáveis em uma equipe, o psicólogo também deveria ser. E deveria passar despercebido, na vitória ou na derrota. Guardadas as devidas exceções históricas — como o papel de Filé na recuperação de Ronaldo Fenômeno —, o trabalho desse tipo de profissional deve acontecer nos bastidores. Sua avaliação deve se dar à luz de critérios que não se confundem com o sucesso ou o fracasso momentâneo na competição. Continua após a publicidade ​A complexidade do tema envolve raízes profundas da formação do atleta brasileiro. Já ouvi de um dos maiores treinadores de futebol da atualidade que o maior desafio enfrentado nos treinos é fazer com que um jogador compreenda a sua orientação tática, em virtude da baixa formação educacional da maioria deles. Trata-se aqui de uma questão não exatamente psicológica, mas psicopedagógica, que afeta diretamente a forma como os atletas processam informações e lidam com suas emoções. ​Outro fator crônico é o background familiar e social. Não é raro vermos notícias de familiares que deram golpes financeiros no próprio filho jogador, ou de famílias inteiras que vivem na dependência de atletas que se tornaram milionários da noite para o dia, carregando dezenas de dependentes (por vezes, oportunistas) nas costas. Esse é um dos estresses mais comuns relatados nos bastidores. ​E, falando em dinheiro, não se deve desconsiderar o impacto da mudança abrupta de classe social. Nenhum de nós, de fora, é capaz de dimensionar o que significa nascer na periferia, sob o peso do anonimato e das ameaças do racismo, e, aos 17 ou 18 anos, ver-se dirigindo um carro importado com um contrato que garante a sobrevivência de gerações da sua família. É um debate que rende análises antropológicas profundas, mas que deságua diretamente na clínica psicológica. Isso sem falar na gestão de vaidades dentro dos grupos, papel que cabe principalmente ao treinador, mas que também incide sobre o psicólogo. Continua após a publicidade ​Tratar a psicologia com a expectativa messiânica de que ela vá solucionar, sozinha, as mazelas do nosso futebol é jogar contra a própria categoria. É obrigação das confederações manter uma equipe de profissionais em cada categoria, de todos os gêneros, com acompanhamento longitudinal ao longo de todo o ciclo olímpico ou mundial. ​Temos profissionais sérios e extremamente competentes de sobra no Brasil. Estimo que o custo dessa estrutura equivaleria a menos de 1% do salário dos treinadores de ponta. Mas, enquanto tratarmos a psicologia esportiva como um “adereço de emergência” para apagar incêndios em equipes fragilizadas, estaremos apenas reforçando estereótipos e nos submetendo a estratégias populistas. O alto nível técnico, tático e emocional exigido hoje em uma Copa do Mundo, em um Grand Slam ou nos Jogos Olímpicos exige profissionalismo estrutural, não soluções mágicas de última hora. * Gustavo Bonini Castellana é psiquiatra e coordenador do ambulatório de psiquiatria esportiva do Instituto de Psiquiatria da FMUSP Publicidade

Créditos Veja

FONTE: https://veja.abril.com.br/esporte/o-drama-da-copa-do-mundo-impoe-uma-questao-qual-o-papel-da-psicologia-no-esporte/
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