Muito além do placar: grandes eventos esportivos impactam o cérebro dos torcedores, indica neurologista do Hospital Moinhos de Vento

Evidências científicas apontam que a paixão pelo futebol ativa o sistema de recompensa cerebral, gera memórias e pode ser usada como ferramenta clínica no diagnóstico de demências como o Alzheimer

Por LAURA CASAGRANDE
6 7 Min

Muito além do placar: grandes eventos esportivos impactam o cérebro dos torcedores, indica neurologista do
Imagem de Jefferson Alessandro por Pixabay

Quando acontecem competições de grande magnitude, como a Copa do Mundo, o impacto no cérebro dos torcedores vai muito além do entretenimento passageiro ou da simples recordação de resultados. De acordo com o Dr. Wyllians Borelli, neurologista e pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, eventos esportivos globais atuam como poderosos catalisadores neurocognitivos. O futebol ativa vias emocionais, de recompensa e de identidade social que beneficiam desde a formação de memórias permanentes até o apoio no tratamento de pacientes com quadros neurodegenerativos, como a doença de Alzheimer.

Com base em evidências recentes de neuroimagem e psicologia cognitiva, a literatura científica demonstra que a alta intensidade emocional e o senso de antecipação gerados por grandes jogos ativam a amígdala cerebral, que, por sua vez, modula o hipocampo, a área da memória. “O cérebro do torcedor trabalha de forma fascinante durante um grande evento esportivo. Quando ficamos ansiosos por um jogo importante e vivenciamos um desfecho positivo, há uma intensa liberação de dopamina e uma forte ativação do hipocampo, o centro de processamento de informações do cérebro. Esse processo cria memórias associadas a emoções  – recordações tão vívidas que, décadas depois, ainda sabemos exatamente o contexto, os cheiros e as companhias ao nosso redor durante um gol decisivo ou uma vitória importante para o nosso time", explica o Dr. Borelli.

Além disso, o cérebro de um torcedor não é um processador passivo. Estímulos visuais de vitórias e gols ativam intensamente o giro do cíngulo (parte do cérebro responsável pela regulação emocional e o processamento cognitivo) e a área tegmental ventral, relacionada ao circuito de recompensa, prazer e motivação. No fim, o processo de torcer acaba sendo benéfico para os circuitos cerebrais. Curiosamente, para preservar a identidade emocional e o bem-estar da pessoa, o cérebro também tende a suprimir conteúdos negativos dessas lembranças ao longo do tempo.

Do ponto de vista social e preventivo, o engajamento em eventos como a Copa do Mundo também contribuem para a nossa reserva cognitiva – a “poupança cerebral”. O debate constante sobre táticas, escalações e o histórico das seleções, aliado ao pertencimento a uma comunidade, consolida as memórias individuais. O envolvimento intelectual e as interações sociais geradas por esse fenômeno são pilares comprovados cientificamente na construção da reserva cognitiva ao longo da vida. Graças à reserva cognitiva, temos mais recursos neurais e neuroproteção, ajudando a proteger o cérebro contra o declínio natural da idade.

Contudo, um dos desdobramentos mais fascinantes dessa paixão mundial encontra-se na prática clínica. “Como o interesse pelo futebol geralmente se consolida na juventude, essas memórias tornam-se profundamente enraizadas e resistentes à degradação observada em casos de demência. A utilização de vídeos ou áudios de partidas históricas atua como uma chave na Terapia de Reminiscência, reativando redes neurais adormecidas em pacientes com Alzheimer. O resultado é a melhora momentânea da fluência verbal e uma redução da apatia e do isolamento social”, aponta o pesquisador.

 


Sobre o Hospital Moinhos de Vento

Com o propósito de Cuidar das Pessoas, integrando assistência, pesquisa e educação, o Hospital Moinhos de Vento, fundado em 1927, foi o segundo hospital do país acreditado pela Joint Commission International (JCI), sendo reacreditado pela oitava vez consecutiva em 2023. Conta com um dos parques robóticos multiplataforma mais diversificados da América Latina e é referência nacional em práticas sustentáveis no setor hospitalar, sendo a primeira instituição do Brasil a construir, em seu complexo, uma Central de Transformação de Resíduos. É um dos hospitais de referência do país segundo o Ministério da Saúde e o único fora do eixo Rio-São Paulo a integrar o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). Em 2026, conquistou a certificação Magnet Recognition Program®️, um dos mais importantes reconhecimentos internacionais de excelência em enfermagem, e novamente foi reconhecido entre os melhores hospitais do mundo pelo ranking da revista Newsweek, consolidando sua posição como o melhor hospital da Região Sul e entre os principais do Brasil. Também eleito a melhor empresa do Brasil no segmento Saúde pelo Anuário Época Negócios. Na América Latina, foi reconhecido entre os melhores hospitais do continente pela Latam Business Conference (Top Ranking Latam Best Hospitals) e destacado pela Intellat como referência em telemedicina e experiência do paciente. Também reconhecido pela MIT Technology Review Brasil como uma das organizações mais inovadoras do país (Innovative Workplaces 2025), sendo a única instituição de saúde entre as selecionadas. Combinando tradição, inovação e compromisso social, o Hospital Moinhos de Vento consolida-se como uma das principais instituições de saúde da América Latina. Saiba mais no nosso site e acompanhe os nossos conteúdos no LinkedIn e Instagram.

 

Referências

1 - BOTZUNG, A. et al. Component neural systems for the creation of emotional memories during free viewing of a complex, real-world event. Frontiers in Human Neuroscience, 2010.

2 - CAYOLLA, R. et al. The neural bases of sport fan reactions to teams: Evidence from a neuroimaging study. Journal of Consumer Behaviour, 2024.

3 - MERCK, C. et al. Remembering the big game: social identity and memory for media events. Memory, v. 28, n. 6, p. 795-814, 2020.

4 - RIBEIRO, A. et al. Memory footprint: Predictors of flashbulb and event memories of the 2016 Euro Cup final. Frontiers in Psychology, v. 14, 2023.

5 - WOODS, B. et al. Reminiscence therapy for dementia. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2005 (e atualizações posteriores).

6 - BRASIL. Ministério da Saúde. Doença de Alzheimer. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/alzheimer. Acesso em: 26 jun. 2026.


 

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LAURA CASAGRANDE ALEGRE
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